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03 março 2008

Internet cria a economia do gratuito

Para o autor do livro A Cauda Longa, é cada vez mais forte a tendência de se oferecer produtos e serviços de graça

A Lei de Moore, que recebeu esse nome em homenagem a um dos fundadores da Intel, diz que o preço do poder de processamento cai pela metade a cada 18 meses. Os preços do armazenamento de dados e da conectividade caem ainda mais rápido. Essa tendência ao zero dos custos de infra-estrutura permite que os produtos digitais sejam oferecidos de graça. "Tudo o que faz parte da economia da internet é grátis", afirmou, por telefone, Chris Anderson, editor-chefe da revista americana Wired e autor do best-seller A Cauda Longa. "Nunca havia acontecido de toda uma economia ser construída em torno do conceito de gratuito."

Em A Cauda Longa, ele mostrou como a internet permitiu que o mercado passasse da massificação para a personalização. Ele escreve agora um novo livro, que se chamará Free (Grátis), e deve ser lançado no começo do ano que vem. Ele escreveu sobre o assunto na Wired de março e o texto está disponível no site da revista desde ontem. A seguir, trechos da entrevista.

Existe alguma coisa que, na sua opinião, nunca será oferecida de graça?

A maioria das coisas. Basicamente, existem duas maneiras principais de se oferecer coisas de graça. É possível fazer um gratuito falso, com subsídios cruzados. Qualquer coisa pode ser falsamente gratuita, mas não gratuita de verdade. E existem os produtos digitais, que podem realmente ser grátis. Então, tudo o que não pode ser transformado num produto digital, pode ser só falsamente grátis.

Temos visto muitos produtos sendo vendidos como serviços, como celulares dados pelas operadoras na assinatura de contratos. As pessoas serão capazes de pagar todas as mensalidades criadas por essa tendência?

Eu não sei. Existe diferença entre um pagamento único e pagamentos graduais. É como comprar um carro ou alugá-lo. Acho que haverá uma migração crescente do dinheiro do começo da decisão de comprar alguma coisa para um pagamento em andamento. É preciso fazer as contas na cabeça para saber se compensa. Não sei sobre você, mas minhas assinaturas mensais estão realmente subindo, chegando a US$ 300, US$ 400 por mês. Sozinhas, não são muito grandes, mas juntas se transformam em bastante dinheiro. Acho que existem limites, e haverá uma retração do modelo de assinaturas, se houver exagero.

Ao mesmo tempo, existem vários serviços sendo vendidos como conteúdo, com receitas de publicidade. Existe mercado publicitário suficiente para todos que estão tentando isso?

Não. É importante notar que a publicidade não vai pagar por tudo. Haverá mais dólares de publicidade na internet do que existe hoje e, possivelmente, mais dólares de publicidade em todos os meios, porque a publicidade na web abre espaço para novos anunciantes e novas formas de anúncio. Dessa forma, acho que o bolo total vai crescer. Mas ele não vai crescer instantaneamente e não acredito que a publicidade irá patrocinar toda a economia do grátis. Um dos grandes enganos sobre a economia do gratuito é que ela será toda sustentada por publicidade.

Quem está mais apto a sobreviver nesse ambiente?

A resposta imediata é o Google.

E quais são os melhores modelos de negócio para este ambiente?

Não haverá apenas um vencedor. Estamos somente no começo da economia do grátis. No nosso web site, temos uma lista de modelos de negócio. Hoje, são cerca de 20 e há provavelmente 2 mil. Não tenho uma resposta sobre quem vai viver. Provavelmente não será uma entidade única.

Hoje nós pagamos para ter uma versão impressa da Wired.

Não este mês. (Há uma promoção no site para distribuição de exemplares gratuitos para leitores americanos.)

O senhor acredita que existe uma tendência de as revistas se tornarem gratuitas?

As revistas já são virtualmente grátis. Na versão impressa da revista, nós cobramos um montante muito pequeno, que não tem ligação com o que realmente nos custa produzi-la. Nós cobramos porque é uma maneira de garantir que os assinantes estão interessados no produto, o que nos permite cobrar mais dos anunciantes.

Esse é o modelo tradicional para revistas e jornais. O senhor não vê nenhuma grande mudança nessa área?

Não. No lugar de o gratuito desafiar o modelo de mídia, o gratuito abraça o modelo da mídia. Vários outros setores vão adotar o modelo da mídia.

E a mídia vai perder espaço nesse cenário?

A partir do momento em que existe cada vez mais competição pelos dólares de publicidade, e a mídia não é a única que vai consegui-los, acho que a mídia vai perder participação de mercado. Mas o mercado publicitário vai crescer e, dessa forma, não será uma perda absoluta.

Por que o senhor resolver escrever Free depois de A Cauda Longa?

A idéia veio de um dos capítulos de A Cauda Longa, sobre a economia da abundância. Estava pensando que a cauda longa (oferta na internet de produtos que interessam a poucos consumidores) foi permitida pelo espaço infinito e gratuito de prateleira. Quando as coisas são gratuitas, você pode desperdiçá-las, e existe muito mais variedade de produtos disponível hoje. Pensei mais sobre espaço gratuito de prateleira e desperdício de espaço de prateleira e percebi que tudo o que está em volta da economia da internet é gratuito. E isso é surpreendente. Nunca havia acontecido de toda uma economia ser construída em torno do gratuito. Resolvi mostrar como as pessoas fazem dinheiro e quais são as implicações disso. Isso levou para ao livro e ao artigo.

Quanto vai custar o livro novo?

Será de graça em todos os formatos digitais. O livro eletrônico, o audiolivro e o livro na web serão gratuitos. Talvez um dos formatos físicos venha a ser grátis também. Haverá uma versão para ser comprada, se quiser. Mas, se quiser de graça, terá de graça.

Fonte: O Estado de S. Paulo - 26/02/2008

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